Design e decoração afetiva

O lar é a extensão da alma. Faz todo sentido, não é mesmo? A casa só pode se transformar em lar e refúgio quando abriga e contempla todas as nossas necessidades, anseios, desejos, gostos e hábitos.

Contudo, nos últimos anos, os conceitos a respeito de tendências na decoração e no design transformaram boa parte dos espaços em monotonias que carecem de personalidade, onde o que realmente vale é tudo estar em seu devido lugar como se alguém sequer habitasse aquele ambiente. Conhece a expressão, “a casa é capa de revista” ou algo próximo disso? Isto faz menção aos ambientes intactos, milimetricamente perfeitos com decorações que muitas vezes não possuem a menor relação com a essência e personalidade do cliente, mas que esteticamente traz a sensação de que aquele espaço é o desejo a ser alcançado.

Felizmente, este cenário tem passado por gradativas transformações e a valorização de um design que respeite e valorize as características excêntricas e extremamente íntimas do morador estão em pauta como prioridade. Para isso, a ação mais importante do profissional é a abordagem a este morador, o que chamamos de briefing: lá serão esclarecidas questões tais como hábitos, rotina, gostos pessoais, personalidade e as expectativas gerais no quesito de desejos e necessidades imprescindíveis, afinal, o seu lar deve abrigar tudo que lhe for essencial.



Decoração afetiva e integração entre áreas de estar e leitura. Fonte: Pinterest

Partindo deste princípio, chegamos ao conceito que leva o título desta matéria: design e decoração afetiva. O que é? A partir da própria palavra, é a área do design que permite analisar, estudar e avaliar soluções para os ambientes que agreguem e acondicionem afetividade, este substantivo tão abstrato.

Para encontrar soluções afetivas, voltemos à análise do cliente como um exemplo prático: o morador da casa gosta do estilo industrial de decoração, porém tem uma poltrona herdada de sua avó que contempla um estilo totalmente clássico e que foge da proposta de interiores. O correto seria pedir ao morador para se descartar ou adequar o elemento à decoração, como a tal “cereja do bolo”? É disso que trata o design afetivo: é ter afetividade pela história que lhe contam e ao mesmo tempo ser capaz de traduzir todo o afeto que a pessoa tem por meio dos espaços, acomodando memórias e boas lembranças.



Quadros e objetos de decoração que contam histórias. Fonte: Lider Interiores

Em poucas palavras, o design afetivo é aquela bagunça sugestiva que pontua grandes histórias e memórias a serem exploradas. Peças da família, composições inusitadas, uma coleção de um item pouco visto, uma peça herdada de gerações, aquela colcha de retalhos ou aquelas cerâmicas antigas são pontos fortes para uma decoração legítima e autêntica.



Decoração em estilo Boho com diferentes peças de garimpo que remetem ao design afetivo. Fonte: Hypeness

Espaço de leitura. Fonte: Studio KT

Os dois propósitos principais do design e decoração afetiva são proporcionar aos moradores o conforto, o aconchego e a lembrança de momentos, de conquistas, de memórias e do afeto que devemos ter por todas elas. Relembrar que tal peça foi conquistada com bastante esforço, que aquele móvel existe há décadas na sua vida, que as pessoas daquelas fotografias são extremamente importantes na sua vida, que aquela coleção de livros transcende um pouco do que você é e se tornou e que a conquista plena de um lar deve ser celebrada sempre.

O design afetivo é inclusive surpreendente não somente para o morador, como também para as visitas e familiares, visto que o espaço tem por sua essência o ato de ser convidativo, expressivo e acolhedor como um grande abraço. Ás vezes, passamos por um espaço que nos remete não somente uma lembrança, mas que desperta sentidos: é o que a afetividade causa. Uma cozinha que parece tão familiar que não dá vontade de sair, uma mesa posta tão organizada que de longe já sentimos imaginariamente o cheiro do bolo; aquele quarto que literalmente desperta bons sonhos ou aquela varanda que te faz querer sentar para refletir, ler um livro ou trocar conversas.

Abaixo foram selecionadas duas cozinhas que trazem automaticamente esse desejo, sendo a primeira selecionada pelo blog Histórias de Casa, que faz um trabalho incrível ao contar histórias e lembranças sobre os moradores, em seus mais diferentes estilos e costumes.



Decoração afetiva com diversificados itens na cozinha. Fonte: Histórias de Casa


Cozinha em estilo retrô. Fonte: Eloá Eidt

Para iniciar o processo de decoração afetiva no seu lar, o primeiro passo é revirar todos os acessórios e peças que você talvez tenha guardado por não ter encontrado uma finalidade ou considerado antiquado. Mas, lembre-se: se a peça tem uma história boa em sua vida, é incrível poder resgatá-la. Se o elemento em questão estiver com marcas do tempo, desgastes e danificados, é interessante investir em customizações restauros para manter a identidade. Além destes itens afetivos, é possível mesclar com a decoração mais atual e até mesmo garimpar diferentes estilos em lojas específicas que priorizam o estilo vintage e o retrô. Vale apostar!



Garimpo de peças antigas e usadas. Fonte: Uol

Porque é disso que o lar precisa retratar: boas memórias, lugares para conversar em volta da mesa, um sofá confortavelmente favorável para boas risadas, um espaço repleto de fotografias que remetam a momentos incríveis (mesmo que as molduras sejam diferentes, que a combinação das cores não seja idêntica ao projeto). Por que devemos sim valorizar a harmonia e o equilíbrio, mas senão houver a identidade, sua casa deixou de ser lar, é apenas um espaço de transitar.

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